PEDRO BESSA(*)
(*) Reprodução de trabalho realizado no âmbito do Mestrado em Neuropsicologia Clínica do ISMAI, em 2011, para o Módulo de Envelhecimento Cerebral, orientado pelo psiquiatra Prof. Doutor Carlos de Mendonça Lima
Sumário
A actividade física regular é apontada como um dos elementos essenciais de um estilo de vida saudável, prevenindo o desenvolvimento de inúmeras doenças crónicas. Também do ponto de vista do envelhecimento cerebral normal parece ter um papel importante no atraso do declínio cognitivo. O presente artigo faz uma revisão da literatura em torno da investigação acerca dos benefícios que a prática de actividade física poderá ter na prevenção da doença de Alzheimer, bem como no retardar das suas consequências. Apesar da pertinência desta pesquisa, há ainda muitas questões em aberto, embora, na generalidade, a actividade física regular seja incluída na lista dos factores protectores.
Palavras-chave: Alzheimer, envelhecimento cerebral, actividade física, exercício, prevenção, declínio cognitivo
A doença de Alzheimer (DA), descrita pela primeira vez, em 1906, pelo neuropatologista alemão Alois Alzheimer (Grilo, 2009), é uma enfermidade neurodegenerativa marcada por uma grande variedade de manifestações clínicas cognitivas e de conduta, estando intimamente relacionada com o processo de envelhecimento (Bartolomé, 2009).
Actualmente, é a mais frequente das demências, facto que pode ser explicado pelo aumento da experança média de vida e com o envelhecimento da população mundial, podendo ser classificada como um problema de saúde pública (Grilo, 2009). Deve salientar-se, porém, que apesar da incidência da DA surgir com o avançar da idade, ela não é um exclusivo dos idosos, já que, actualmente, têm sido registados casos em indivíduos com menos de 60 anos (idem).
Em Portugal, estima-se que 90 mil pessoas padeçam desta doença, calculando-se que na Europa este número ascenda aos 7,3 milhões, afectando mais as mulheres do que os homens, segundo dados do projecto Eurocode, conduzido pela Alzheimer Europe. Estudos realizados em França, previsivos sobre o impacto da patologia, apontavam para que entre os anos 2000 e 2020 o número de casos aumentasse 25% em cada dez anos (Touchon & Porter, 1994).
Tratando-se de uma doença neurodegenerativa cujas alterações mentais iniciais passam, muitas vezes, despercebidas, é frequente a impossibilidade de precisar a ocasião de início, tanto pelos familiares como pelo paciente (Adams, Victor & Ropper, 1998). Na verdade, a DA instala-se de modo insidioso, progredindo lentamente e registando, frequentemente, períodos estacionários e até aparentes remissões (Ferro & Pimentel, 2006). O quadro clínico desta doença resulta, no entanto, numa sequência de problemas neurológios incapacitantes (Adams, Victor & Ropper, 1998).
Factores de risco
Do ponto de vista etiológico, há uma diversidade de factores de risco, embora nem todos reúnam consenso. A comunidade científica identifica, essencialmente, três factores que de certeza contribuem para a probabilidade de ocorrência da doença (Grilo, 2009). Desde logo, o factor etário é considerado o mais importante, tendo em conta que a prevalência e a incidência progridem consideravelmente com a idade. Por outro lado, a maioria dos estudos identificou um risco duas vezes maior em filhos de indivíduos que tiveram uma demência (transmissão genética), comparativamente com a população em geral (idem). Finalmente, as pessoas portadoras de uma variante e4 do gene Apo E, uma glicoproteína localizada no braço longo do cromossoma 19 – e que constitui uma das principais proteínas presentes no plasma humano – correm um risco maior de DA (Ojopi, Bertoncini & Neto, 2004). Esta probabilidade é multiplicada por 2 a 4 nos portadores de apenas um alelo e4 e por 5 a 8 nos portadores de 2 alelos e4 (Touchon & Porter, 1994).
Entre os factores de risco estão também o sexo feminino, a ocorrência de perturbações vasculares, o baixo nível sociocultural, a existência de antecedentes de traumatismo craniano e de trissomia 21, bem como o pequeno perímetro craniano (Grilo, 2009).
Factores protectores
Nas duas últimas décadas, investigações epidemiológicas têm identificado factores protectores capazes de prevenir o desenvolvimento e a progressão da DA, designadamente a deterioração cognitiva decorrente (Rolland, Kan & Vegas, 2008). Entre eles, têm despertado especial atenção a influência do nível académico e sociocultural dos indivíduos enquanto características com um efeito protector, explicado pelo desenvolvimento de ligações sinápticas em maior número na sequência de uma superior riqueza em termos de estimulações cognitivas (Grilo, 2009).
A existência de uma «reserva mental», também designada por «reserva cognitiva», potenciada por um elevado nível educacional e por uma estimulação cognitiva permanente, é entendida como um contributo importante para atrasar e compensar o desenvolvimento dos sintomas associados à DA (Gagnon et al., 1994).
A investigação tem, também, citado outros agentes protectores de DA, designadamente a ingestão regular de fármacos e alimentos com acção antioxidante, o consumo moderado de vinho ou a toma regular de anti-inflamatórios não esteróides (Grilo, 2009).
Há, no entanto, um conjunto de outros factores cujo efeito eventualmente preventivo na DA tem vindo a ser estudado. Um deles diz respeito à actividade física, conhecida como um factor positivo na prevenção de uma série de doenças crónicas, designadamente a cardiovascular, a hipertensão, a diabetes tipo II e alguns cancros (Hamer & Chida, 2008). Aparentemente, existirá uma relação linear entre actividade física e o estado de saúde, com reflexos até ao nível da redução dos casos de morte prematura (Warburton, Nicol & Bredin, 2006).
Papel da actividade física na DA
Apesar da premência deste tipo de estudos, a investigação sobre as potencialidades da actividade física enquanto factor protector na DA é, ainda, relativamente reduzida se comparada com outros domínios, embora tenha registado na última década um crescente interesse por parte dos investigadores (Hamer & Chida, 2008; Rolland, Kan & Vellas, 2008).
Não obstante a inexistência de consenso, são crescentes as evidências que sugerem a actividade física regular como uma importante estratégia preventiva, capaz de ajudar a atrasar o declínio cognitivo e abrandar o ritmo de progressão da DA (Rolland, Kan & Vegas, 2008). Um papel que é extensivo, na fase inicial da doença, à prevenção de diversas complicações que podem ser devastadoras para os pacientes, designadamente as quedas, distúrbios comportamentais, dificuldades de mobilidade ou perda de peso (ibidem).
Isto significa que a actividade física poderá ser encarada, não só como um factor protector em termos de desenvolvimento da DA, mas também como um importante contributo para melhorar a qualidade de vida destes pacientes, sobretudo nas fases mais precoces da doença.
Os resultados de um estudo longitudinal realizado por Larson et al. (2006), que se prolongou por seis anos e dois meses, envolvendo 1740 pessoas com mais de 65 anos e sem comprometimento cognitivo, sugerem que baixos níveis de actividade física estão associados a um aumento do risco de demência entre pessoas que fazem exercício com uma frequência inferior a três vezes por semana. No entanto, este risco diminui entre os indivíduos que praticam exercício físico a um ritmo de três ou mais vezes semanais. Na interpretação dos dados, Larson et. al (2006) consideram que o exercício não é, propriamente, um factor preventivo da DA, mas pode estar associado a um retardo no início da mesma. Esta afirmação é referida como consistente com o resultado de investigações anteriores.
Larson et. al (2006) acreditam que estas conclusões encontram suporte em estudos experimentais realizados com idosos saudáveis, que demonstraram o papel de programas de condicionamento físico no melhoramento de funções cognitivas superiores, designadamente capacidades executivas, memória e função visuoespacial. Competências que são, precisamente, as primeiras a serem afectadas pela DA.
Uma possível explicação para as conclusões do estudo em questão reside no facto de as áreas do hipocampo, as mais precocemente afectadas pela DA, serem as que menos tecido perdem em pessoas idosas com altos níveis de condicionamento físico (Larson et. al, 2006).
Numa revisão de 16 estudos, que envolveram um total superior a 100 mil participantes e o “follow-up” de 3219 casos, Hamer & Chida (2008) concluíram que a actividade física está inversamente associada ao risco de DA, reduzindo-o em 45%.
Este fenómeno poderá estar relacionado com uma série de mecanismos. Desde logo, o exercício físico regular promove a saúde vascular ao contribuir para a redução da pressão sanguínea, dos lípidos, da obesidade e dos processos inflamatórios, bem como para a melhoria da função endotelial (responsável pela homeostase vascular), factores que são considerados de risco para a DA (idem). Por outro lado, ao promover o aumento da circulação sanguínea no cérebro e ao estimular a produção neuronal, o exercício físico poderá ser benéfico para o desempenho cognitivo (idem).
Uma revisão dos artigos mais relevantes sobre DA e os efeitos da actividade física, publicados entre Janeiro de 1966 e Outubro de 2007, verificou existirem evidências crescentes que sugerem que uma vida activa tem um efeito protector no funcionamento do cérebro da população idosa, considerando que a actividade física pode abrandar o curso da DA (Rolland, Kan & Vellas, 2008) .
No entanto, embora os estudos epidemiológicos, ensaios clínicos aleatórios de curto prazo com pacientes não-dementes e pesquisas biológicas sugiram que a actividade física melhora o funcionamento cognitivo em sujeitos idosos, não existem ainda ensaios clínicos randomizados que demonstrem efeitos em termos de prevenção de demência (idem).
Duração, tipo e idade ideal para o exercício físico
Uma das questões que se colocam quando se admitem os benefícios da actividade física enquanto factor protector contra o risco de DA e outras demências é a que se refere à quantidade de exercício necessária para que tal aconteça, bem como em que momento da vida tal prática deve iniciar-se.
Hamer & Chida (2008) consideram que a actividade física é um factor protector contra o risco de desenvolvimento futuro de demência e de DA, mas não chegam, contudo, a nenhuma conclusão acerca da dose ideal de exercício para que tal condição protectora se concretize. Da mesma forma, não é claro para estes autores em que momento da vida de um indivíduo a actividade física é mais importante para a protecção futura (idem).
Rolland, Kan & Vellas (2008) partilham da mesma dúvida, mas admitem que a prática de actividade física deve iniciar-se bem cedo na vida, tendo em conta que o processo patofisiológico da DA começa muito antes do declínio cognitivo evidente e do momento em que o diagnóstico é efectuado.
A maioria dos autores sugere que o efeito protector do exercício funciona a longo e não a curto prazo, tal como se verifica nos casos das doenças cardiovasculares e cérebrovasculares. Recorrendo à teoria da «reserva cognitiva», sugerem que a prática de actividade física ao longo da vida contribui para manter a função cognitiva na terceira idade. Isto não significa, porém, que essa seja a única condição de sucesso. Resultados de estudos epidemiológicos apontam no sentido de que o início da prática de exercício físico em idade avançada é, igualmente, benéfica para o desempenho cerebral (idem).
Esta continua, contudo, a ser uma questão em aberto, designadamente no que se refere à DA, da mesma forma que também não existem certezas definitivas quanto ao tipo de actividade física, à duração de cada sessão e à respectiva intensidade (idem).
Os resultados de vários estudos sugerem, de uma maneira geral, serem relativamente baixos os limites de intensidade da actividade física para que se verifique uma redução do risco de declínio cognitivo e demência. Ou seja, uma actividade moderada, mas esforçada, pode contribuir para a saúde do cérebro, embora permaneça pouco clara a intensidade óptima exigida para o máximo abrandamento do declínio cognitivo e a redução do risco de demência (idem).
Além dos aspectos relativos à intensidade em termos de dispêndio de energia, o funcionamento cerebral parece, por outro lado, beneficiar de actividades de lazer que incluam os componentes físico, mental e social, contribuindo para atrasar o desenvolvimento de demências (Fratiglioni & Wang, 2007).
Conclusão
A actividade física regular tem-se revelado um importante factor protector em termos de saúde. Ao longo dos últimos anos, têm surgido evidências irrefutáveis acerca do seu papel na prevenção de várias doenças crónicas. Também ao nível do processo de envelhecimento cerebral, diversos estudos apontam-na como tendo um efeito importante no abrandamento do normal declínio cognitivo. Da mesma forma, os dados da investigação recente sugerem que ela poderá constituir um factor protector do risco de demência e DA. Mesmo em pacientes na fase inicial de Alzheimer, a actividade física parece contribuir para abrandar o ritmo de progressão das devastadoras consequências que a doença provoca ao nível do desempenho cognitivo.
Face ao progressivo envelhecimento da população portuguesa, a exemplo do que sucede no resto do mundo, a promoção de estratégias que permitam melhorar a qualidade de vida dos idosos e prevenir, ou atrasar, o desenvolvimento da doença de Azheimer, bem como de outras demências, pode revelar-se um imperativo em termos de saúde pública. Parece, por isso, fundamental focalizar a pesquisa futura no desenvolvimento de programas específicos de exercício físico eficazes neste domínio, bem como de actividades de lazer que associem a interacção social, a actividade física e a estimulação cognitiva das populações idosas.
Bibliografia
Adams, R., Victor, M. & Ropper, A. (1998). Neurologia. Rio de Janeiro: McGraw Hill
Bartolomé, M. & Ardila, A. (2009). Síndromes Neuropsicológicos. Salamanca: Amarú Ediciones
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Fratiglioni, L. & Wang, HX. (2007). Brain Reserve Hypothesis in Dementia. Journal of Alzheimer's Disease, Vol. 12 (1), 11-22
Gagnon M., Dartigues J., Mazaux J., Dequae L., Letenneur L., Giroire JM., Barberger-Gateau P. (1994) Self-Reported Memory Complaints and Memory Performance in Elderly French Community Residents: Results of the PAQUID Research Program. Neuroepidemiology (13), 145-154
Grilo, P. (2009). Doença de Alzheimer. Lisboa: Coisas de Ler Edições
Hamer, M. & Chida, Y (2009). Physical activity and risk of neurodegenerative disease: a systematic review of prospective evidente. Psychological Medicine, 39, 3-11
Larson, E., Wang, L., Browen, J, McCormick, W., Teri, L., Crane, P. & Kukull, W. (2006). Exercise Associated with Reduced Risk of Dementia among Persons 65 Years of Age and Older. Annals of Internal Medicine, Vol. 144, 2, 73-81
Ojopi, E., Bertoncini, A. & Neto, E. (2004). Apoliproteína E e a doença de Alzheimer. Rev. Psic. Clin. 31 (1); 26-33
Rolland, Y., Kan, G. & Vellas, Bruno (2008). Physical Activity and Alzheimer's Disease: From Prevention to Therapeutic Perspectives. JAMDA, Vol. 9, 6, 390-405
Touchon, J. & Portet, F. (1994). Guide Pratique de la maladie d'Alzheimer. Montpellier: Bailliàre Tindal
Warburton, D., Nicol C. & Bredin, S. (2006). Health benefits of physical activity: the evidence. CMAJ, 174 (6), 801-809