Já aconteceu a todos tomarmos decisões que nos surpreendem a nós próprios por serem contrárias ao que pretendíamos, inicialmente, fazer. Por exemplo, quando conduzimos e viramos na rua por onde costumamos seguir todos os dias, embora desta vez quiséssemos prosseguir em frente para irmos ter com o amigo que está à nossa espera. Só nos apercebemos do erro segundos mais tarde... tarde demais! Mas, por que motivo isto acontece?
Os mais recentes estudos sobre os processos de tomada de decisão – porque (e como) decidimos de uma forma e não de outra – apontam para a existência de dois sistemas de raciocínio (cognitivos): um intuitivo e outro deliberativo. Aparentemente, ambos têm campos de intervenção distintos, conforme tem vindo a ser comprovado tanto por dados comportamentais como por estudos de neuroimagem.
É, sobretudo, ao nível dos processos cognitivos que os sustentam que a generalidade das teorias distinguem o raciocínio intuitivo do deliberativo. Desde logo no que respeita aos tipos de memória envolvidos. Enquanto o raciocínio deliberativo está relacionado com a memória de trabalho (envolvida no armazenamento de informação temporária, útil nas nossas tarefas diárias) e a inteligência geral, o intuitivo associa-se, essencialmente, às memórias de longo prazo.
Uma outra característica que permite distinguir estes dois sistemas de raciocínio, unanimamente aceite, é o facto de o intuitivo se orientar, sobretudo, por dados observáveis e conhecimentos previamente aprendidos, resultando de um processo inconsciente (embora o seu resultado não o seja), automático, rápido e conduzido por esquemas de semelhança e associação. Ou seja, que não envolve a atenção.
Este tipo de raciocínio é distinto do deliberativo, já que este último envolve, obrigatoriamente, a consciência daquilo que é pretendido no momento da decisão e do que é necessário fazer para concretizar esse objectivo. Ou seja, trata-se de um processo caracterizado por maior esforço e por uma expressão da nossa vontade (motivação), o que resulta num esquema de raciocínio mais estruturado, demorado, sequencial e que implica liberdade de processamento da informação.
No fundo, estamos perante acções premeditadas (raciocínio deliberativo) e acções que resultam de estímulos ambientais (raciocínio intuitivo). Quando os dois sistemas de raciocínio entram em conflito, ocorre o tal erro de decisão que nos leva a virar o nosso carro num sentido que não era o que tínhamos previsto seguir.
Não é possível, no entanto, afirmar-se que um tipo de raciocínio é mais correcto do que o outro. Tudo depende do momento. O intuitivo, por exemplo, é considerado como mais capacitado para a tomada de decisões quando as opções têm muitos atributos familiares, ou atributos relevantes que são difíceis de verbalizar ou quantificar.
Menos clara para a investigação científica continua a ser a forma como os dois sistemas de raciocínio funcionam e interagem, bem como a localização das suas bases neurais e a forma como os processos emocionais intervêm.
O neurocientista português António Damásio, autor da hipótese dos marcadores somáticos, é um dos principais defensores da ideia de que as reacções emocionais constituem uma forma de tomada de decisão intuitiva. No entanto, outros investigadores alertam para o facto de que a emoção não pode ser dissociada de uma avaliação cognitiva, já que uma resposta emocional a um evento requer, pelo menos, algum entendimento prévio acerca desse mesmo evento.
Muita investigação há, portanto, ainda a fazer para que possamos compreender, verdadeiramente, os nossos comportamentos.
Fonte: Darlos, A. & Sloman, S. (2010). Two systems of reasoning: architecture and relation to emotion. Wiley Interdisciplinary Reviews: Cognitive Science, 1(3), 382-392. doi: 10.1002/wcs.34
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